13.5.13

Sonolência


O cansaço do dia me dói no corpo inteiro e, como se não bastasse, me dói na alma também. Dia que carreguei nas costas com o esforço incompreendido das formigas que carregam folhas julgadas leves: só mais um sofrendo, somente mais um na labuta da vida com as minhas dores e as dos outros que me são próximos e às vezes me doem ainda mais. Custava nada parar de pensar, parar de doer, simplesmente pedir pra descer no meio do caminho como quem tomou o ônibus errado... mas não pára, não desce, não sai o peso de cima de mim. Adormeço. Sonho que algo de bom me desperta e me cobre de carinho; uma voz distante, não sei ao certo, é somente um sonho, sem maiores explicações vem e vai embora, e, ainda sonhando, volto a dormir menos cansado.

12.5.13

Cinco anos e cinco horas


"Quem dera um tempo sem tempo". Era apenas um verso de uma música que Sr. Prudêncio acabara de ouvir no rádio-relógio ao acordar, sendo que tal idéia tomou a totalidade de seus pensamentos de uma forma subitamente angustiante. Pensou na sua coleção de relógios quebrados, todos eles entocados no velho guarda-roupa bege, dividindo a prateleira com uma régua de  madeira e uma calculadora de estimação. Pensou nos seus dois despertadores: o que tocava primeiro, sempre às seis horas da manhã, no aparelho celular que dormia com ele ao lado de seu travesseiro; e o que tocava cotidianamente quinze minutos depois, num rádio-despertador antigo, localizado estrategicamente  acima da cômoda em frente à cama, obrigando-o a levantar-se como garantia de seu despertar, no qual, naquele instante, podia ouvir aquela música perturbadora.

Por que aquele verso banal representava tamanho desconforto para o Sr. Prudêncio?

A resposta não era óbvia, mas um bom observador intuiria que o desaprumo estava indiretamente relacionado a uma certa senhora, sua única vizinha, tendo em vista que o Sr. Prudêncio morava em uma casa de esquina com um terreno baldio atrás. D. Eulália tinha quarenta e sete anos, dois a mais que seu vizinho introspectivo e cordial, e morava ali sozinha desde a juventude (que não tinha de todo se esvaído dela) numa casa pequena e simples. Tinham um contato restrito a bons dias e boas tardes, até o dia em que D. Eulália adoeceu e precisou fazer uma viagem para tratamento médico numa cidade distante. O caso era deveras complicado, e D. Eulália foi ficando na casa de uns parentes na cidade grande, já que precisava de cuidados.

Sr. Prudêncio, homem de poucos amigos, ficou ainda mais isolado do mundo sem aquela a quem dirigia praticamente as únicas e rápidas palavras do dia. Essa solidão lhe caía bem, com sua vida regrada, seus horários de acordar, ir ao trabalho, almoçar, voltar pra casa e dormir, sua rotina devidamente cronometrada. Até que, após cinco anos, D. Eulália regressou, corada e disposta. A sua saúde saltou aos olhos de Sr. Prudêncio desde a primeira vez que a reviu, coordenando a pequena mudança que adentrava a velha-nova casa.

-"Boa tarde, Sr. Prudêncio. Estou de volta, viu! Passe aqui pra tomar um cafezinho qualquer dia desses".

Aquele convite ecoou nos ouvidos dele como uma perturbação, a ponto de tirar-lhe o sono e fazer-lhe perder a hora que os dois despertadores teimavam em anunciar, sem sucesso, até tocar aquela música querendo um  tempo sem tempo. Atrapalhado, atrasado, perturbado, Sr. Prudêncio foi trabalhar no dia seguinte, em que não almoçou e antecipou em duas horas a sua volta pra casa. Como pode, um tempo sem tempo? Era o que o intrigava, a música tocando dentro da sua cabeça mal-dormida durante todo o dia. E aquele reencontro tinha sido um desconcerto, um desafio, uma falta de órbita no relógio da sua vida. Tudo o que ele queria, pensava ao sair do trabalho, era aquela casa vazia novamente, restaurando a ordem na sua existência comedida.

Mas essa desordem o consumia completamente, queimava-o por dentro, e ele, admirado, achava bom: fechava os olhos pra sentí-la mais intensamente. Sentia comichões, tremores, tonturas, a respiração ofegante, as mãos e os pés gelados, uma vontade de chorar... Desviou do caminho de casa e foi até a praia, algo que sempre o acalmava. Chegou perto do mar e se imaginou passeando sobre ele, com D. Eulália. Ali, sobre o mar, a tomava de súbito e a beijava, correspondido, surpreso, cinco anos depois de tê-la visto pela última vez. Sem imaginar o que restava, decidiu voltar pra casa, afinal, pela proximidade do pôr-do-sol, já deveria ser tarde e o trânsito não seria fácil. Deu-se conta que estava sem o seu relógio, e sem o telefone celular também, ambos esquecidos na pressa da manhã. Sentiu-se livre.

Ao entrar na rua de casa, avistou D. Eulália no portão, que lhe acenou e gritou que viesse tomar o café prometido. Esquecido do tempo, ele foi. Antes e depois do café, registrou todos os detalhes observáveis da vizinha, para que pudesse lembrar adiante, durante a sua insônia. As rugas da sua face. Os sinais das costas e do peito, que se prolongavam por caminhos indizíveis de seu corpo. Seu cheiro. Seu sexo. Seu gozo.

Lá passou exatas cinco horas, que não foram contadas por ele nem por seus relógios. Então ele pôde entender a música.

1.4.13

Primeiro de Abril

Quiséramos que fosse mentira
Nossos mortos
Nossos torturados
Nossos desaparacidos
Nossos sonhos castrados
Aquela noite longa sem lua nem canto
Aquele pesadelo que, embora acabado, não é sonho ainda
Antes teremos todos que estar bem acordados
Mas muitos de nós ainda dorme um sono profundo.

27.3.13

O abalo de Madalena

Madalena, no busú, pensava no quanto era triste viver... mas não queria a morte. Queria um comichão qualquer que lhe tirasse o tédio daquelas idas e vindas pela cidade, algo desconsertante que lhe acontecesse, um desaprumo que lhe tirasse o fôlego. Foi então que, já bem perto do ponto, um par de olhos castanhos lhe ofereceu o abalo desejado.

2.10.06

Madalena no Buzú

Madalena olha o mar pela janela. Dia feio, chuvoso! Detesta frio, e pergunta às ondas se na cidade de Magdala, onde viveu sua ancestral - a Maria - fazia frio ou quentura. Não acha resposta, e vê que o mar não está pra conversa. Decide, então, calar seus pensamentos tolos.
Atrás de si, um casal conversa cheio de meias palavras. Mas nossa Madalena, acostumada que está a ouvir estórias em ônibus, logo compreende a situação.
A moça dizia que não tinha culpa, que não poderia adivinhar que a outra iria invadir a privacidade do rapaz olhando as mensagens de seu telefone celular. "Mas ela viu e descobriu tudo!", respondia, contrariado.
Madalena compreendeu tudo. "Adúltero", matou a charada! A moça continuava resmungando do quanto ele era burro, como é que deixava a namorada mexer desse jeito nas coisas dele, que era bem-feito, que agora ele tinha que resolver a situação de todo jeito. Esta última frase surtiu um efeito especial aos ouvidos do traidor. "Mas como assim, resolver a situação?".
Madalena não se conteve em olhar para trás, pois tinha de ver com que cara esse menino estava dizendo esta frase tão cínica! "Nós mulheres, sempre tendo que aguentar estas crianças mal-crescidas", pensou, e perguntou às ondas se Jesus haveria de ter feito coisa semelhante com sua ancestral. O mar decerto não gostou da heresia.
Quando as vistas se encontraram, os dois perceberam que estavam conversando em tom mais alto do que o adequado, e o silêncio que se seguiu denunciou que se sentiram envergonhados.
Madalena lamentou sua indiscrição, afinal, não conheceria o final daquela conversa.

Madalena no Buzú

Começo de tarde. Madalena, sonolenta, vai para o trabalho na condução de sempre. Tenta ler um livrinho, mas se sente bêbada do almoço em digestão somado aos balanços do caminho. Cochila e desmarca a página. Estava sonhando com um engarrafamento qualquer, e acorda com a lentidão do transporte. Repara um alvoroço das pessoas, o motorista irritado e o cobrador indo à frente para verificar não-sabe-o-quê.
Um caminhão quebrado, na subida daquela ladeira tão estreita. Pra completar, um carro parado do outro lado, com o que o motorista estava especialmente irritado, repetindo que ali não era lugar de parar, e cadê esse filho da mãe. Madalena pensou "coitadas de nós, mulheres, sempre a pagar o pato". Desde antes de sua antecessora histórica famosa - a Maria - que era assim, os homens sempre a culpá-las por tudo.
Olha o relógio - "ihhh". O motorista desce e ensaia uma confusão, sendo logo acalmado pelo cobrador. Homem sensato, esse cobrador, Madalena conclui. Acha que ele deve ter reprovado o xingamento à mãe do dono do carro, ou quem sabe fosse uma dona. Inclusive foi o que o vizinho de banco de Madalena disse, logo que viu o carro parado - "Só pode ser uma mulher...!". Madalena olha com cara feia, sendo que não diz nada; somente pensa, de novo - "Coitadas de nós!".
Os passageiros vão subindo de novo no buzú, assim também o cobrador - bom sinal. Vem o motorista e liga o carro. Pronto, resolvida a confusão - segue a viagem.
Madalena procura atenta, e, satisfeita, acha o motorista do carro. Um homem, machíssimo.

26.9.06

Os caminhos do pé

Achava uma delícia o chão passando por debaixo de si, no movimento repetido do impulso do calcanhar ao seu peito. O pé andava o dia todo, com curtos intervalos em que ficava parado, mas gostava mesmo era de correr.
Tinha amigos aos montes, com os quais sempre batia um papo rápido, na língua inaudível dos pés. Um dia desses avistou um companheiro de corridas que lhe disse ter ganho um calo novo, muito simpático, pena que já estava indo embora. Outra colega disse, feliz, que sua dona já não lhe punha saltos há mais de mês, e que a vida era outra. Avistou um terceiro brigando tão ferozmente com o joelho que nem parou para cumprimentar - era um tal de mais-rápido versus mais-devagar sem fim.
Quando via o tênis se aproximando, a meia lhe sufocando, o talco lhe embranquecendo e o cadarço lhe apertando, imaginava logo qual seria o percurso do dia. Torcia pelo calçadão da praia, com todo aquele sol e todo aquele vento a lhe referescar. Mas, se viesse o asfalto, com todo aquele mormaço, também estava bom.
Assim era feita a vida do pé, de caminhos e descaminhos.

24.8.06

Pólen

Violetas, rosas, girassóis, azaléias... quem há de negar a possibilidade da beleza, se o mundo tem até flores? Bastam a terra molhada, o carinho da chuva, o tempo do sol e o pássaro que carregue a vida de uma para a outra. Flores são como as pessoas: podem trazer o colorido, e podem exalar perfumes os mais diversos, contanto que haja um pouco de cuidado, o tempo do sol e o da chuva. E o pólen das pessoas é o que uma troca com a outra; somos nossos próprios pássaros, sempre nos deixando nos outros e carregando conosco o que deixaram em nós. Assim, morremos e continuamos vivos, nos outros, como as flores morrem para virar frutas - e a eternidade está feita.

Os ônibus e os amores

Esperava e esperava o ônibus, com a ansiedade de quem quer ir logo para o mais breve poder voltar. Lá estava, parado dos pés, mas todo chocalhos com a cabeça e com os braços, a contar o tempo que já fazia que esperava a condução. A leitora e o leitor devem saber, se andam de ônibus, que basta um só impaciente numa parada para despertar toda a angústia dos demais – a lembrança de algo que se esqueceu em casa e que já tinha dado tempo de ir buscar; a agonia do xixi que não se fez pra não perder o ônibus; a iminente bronca do patrão quando se chegar, atrasado, ao trabalho; enfim, a angústia indizível de não ser ainda passageiro.
Eis que se aproxima mais um, e ele pensa que são todos iguais como os amores: vêm e vão, e todas as pessoas os desejam desesperadamente, e fazem promessas para que eles cheguem logo.
De onde ele estava, não fosse a miopia, daria pra ver o destino do carro assim que dobrasse a esquina, há uns 100 metros. Mas esse defeito de nascença, herdado de pai e mãe, aumentava sua ansiedade, o coração batendo forte cada vez que um ônibus verde e branco se aproximava, pois ele sabia que então era tudo ou nada: dali se seguiria um instante de imenso alívio ou mais um longo tempo de raiva desmedida do trânsito, dos empresários dos transportes, dos motoristas, do sol forte na sua cara ou da chuva, se de repente começasse a chover. Apertando bem os olhos, pois assim conseguia ver um pouco melhor de longe, constatou que sim, era o seu ônibus, e foi um tal de graças-a-deus cá consigo que esqueceu de estender o braço para o motorista parar.
Correu atrás, como se corre atrás do amor que vai embora, e pulava, e levantava os braços para chamar a atenção, como o arrependido que implora para o amor voltar.
Ingratos, ele pensou, e seguiu seu caminho com os próprios pés.